Esta semana eu fiquei pensando em apresentar algo muito diferente neste Blog e depois de pensar bastante, decidi entrevistar alguém que sofra de TBH/TAB, mas que tenha tido problemas com drogas também, (como nós) justamente para que os leitores do O Bipolar possam ter a visão da pessoa que passou pelo problema. Acabei conversando com alguém que vamos usar o pseudônimo "O Adicto" para manter o seu anonimato, visto que ainda existe muito preconceito na sociedade para pessoas que padecem tanto de TBH/TAB quanto de Adicção (ou dependência quÃmica) e ainda mais neste caso em que a pessoa sofre dos dois males. Então, vamos deixar de delongas e vamos à entrevista.O Bipolar: Posso te chamar pelo nome ou você prefere o anonimato ?
O adicto: Eu prefiro manter o anonimato para preservar a minha intimidade e imagem profissional, pois onde trabalho ninguém sabe das minhas enfermidades.
O Bipolar: Como é essa coisa de ser Adicto e Bipolar ao mesmo tempo?
O adicto: É complicado, tem momentos em que eu fico muito confuso sobre os meus sentimentos e não sei se o que eu sinto é vontade de usar drogas ou sintomas da Bipolaridade.
O Bipolar: Mas você ainda sente vontade de usar drogas?
O adicto: Sem dúvida, a Adicção é uma doença crônica e incurável como a Bipolaridade, isto quer dizer que eu vou sentir vontade de usar para o resto de minha vida, a diferença é que ela (a vontade) não vem com a mesma intensidade da época em que eu usava direto, mas sinto sim vontade de usar.
O Bipolar: E aÃ, como você faz quando essa vontade vem?
O adicto: Bem, eu frequento uma irmandade anônima e com a literatura e os companheiros mais antigos descobri algumas coisas que me ajudam muito quando a vontade vem forte. Eu tenho sempre a mão uma lista com vários números de telefone de outros companheiros da irmandade para pedir ajuda nestes momentos crÃticos, leio a literatura ou algum folheto, procuro meu padrinho, etc. Eu faço qualquer coisa para não voltar a usar drogas, então quando sinto vontade eu sigo à risca o que me é sugerido nos Grupos.
O Bipolar: Qual irmandade você freqüenta?
O adicto: Eu frequento Narcóticos Anônimos, porém quero deixar bem claro que não falo pela irmandade e que o que for dito por mim reflete apenas a minha opinião pessoal.
O Bipolar: Porquê tanto cuidado?
O adicto: Para preservar os princÃpios de NA.
O Bipolar: Bem, conte para nós um pouco da sua experiência com o uso de drogas.
O adicto: No inÃcio foi bom, era a resposta para as minhas dificuldades: me tornei popular, ficava bastante desinibido, realmente me sentia ótimo, o grande problema era quando acabavam as drogas.
O Bipolar: Porquê?
O adicto: Por que aà o encanto todo ia embora e a realidade batia, junto com uma depressão medonha que parecia que não ia acabar nunca. Eu me tornava um verdadeiro lixo humano, eu me sentia desta maneira, começava a "bater" o remorso das coisas erradas que tinha feito para conseguir mais algumas doses. Quando chegava este momento eu invariavelmente pensava em suicÃdio.
O Bipolar: E você já tentou suicÃdio?
O adicto: A primeira tentativa eu tinha uns dez anos, minha mãe havia me humilhado na frente de algumas pessoas e eu queria tomar vários tranqüilizantes dela, eu queria morrer mesmo, mas só haviam dois no vidro e eu achei que seriam pouco e que depois ainda levaria uma surra, por isso não ocorreu, mas se tivesse pelo menos uns cinco eu teria tomado com certeza.
O Bipolar: E depois?
O adicto: Uma coisa que hoje eu sei sobre o suicÃdio, é que age como a vontade de usar drogas, é temporária a vontade, ela vem e depois de algum tempo vai embora, porém quando vem é de uma intensidade impressionante, e aà só um acidente de percurso ou alguma coisa externa muito forte poderia interromper o processo.
O Bipolar: Houveram outras tentativas?
O adicto: Sim, mas sempre alguma coisa atrapalhava e aà a vontade ia embora.
O Bipolar: Bem, pelo visto você parou de usar drogas frequentando NA, e a Bipolaridade, como descobriu?
O adicto: Eu percebi que algumas coisas eu não conseguia modificar com os doze passos de NA e comecei a pesquisar na Internet. Encontrei um site que falava sobre TDAH, fiz o teste que havia lá e pelo resultado eu tinha uma boa chance de ser portador do transtorno. Marquei uma consulta com um Psiquiatra e pronto, o cara depois de algumas consultas me diagnosticou como Bipolar.
O Bipolar: E depois que começou o tratamento, sentiu alguma diferença?
O adicto: Sem sombra de dúvida, minha vida mudou completamente, as coisas que eu não conseguia modificar com o programa de NA estavam sendo resolvidas com o tratamento, por exemplo: minha impulsividade diminuiu bastante, minha irritabilidade e verborragia também, etc..
O Bipolar: Bem, estamos terminando e eu gostaria de saber se quer deixar alguma mensagem para as pessoas que estarão lendo esta entrevista no O Bipolar.
O adicto: Eu gostaria de dizer, que se você acha que pode ser portador de TBH/TAB, ou seu filho/filha, não tenha medo e nem vergonha de procurar um psiquiatra, pois o que mais me atrapalhou e fez com que meu tratamento demorasse a começar foi o preconceito com a psiquiatria.
E Também gostaria de dizer aos que tem problemas com drogas que existe um lugar onde você pode parar de usar drogas, perder o desejo de usar e encontrar uma nova maneira de viver.
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