V

enho cuidando de mim, me observando, aparando arestas, corrigindo onde estou errando...
Venho dizendo mais não para o que não concordo, dizendo mais sim para o que concordo e me dispondo mais. Venho me lembrando que todos nós temos 24hs pr dia para acertar mais do que errar, e tenho tentado dividir o meu tempo da melhor maneira possível. Venho dando o melhor de mim.
Vim hoje dizer que estamos bem e acho que temos muita sorte...
Sorte é batalhar para fazer acontecer, eu vejo as coisas assim. Plantar coisas boas para poder colher coisas boas.
Me acho até sortuda por saber que sou uma Bipolar.
Calma aí!
Não se revoltem, vou explicar:
Antes quando estava deprimida me sentia sem ânimo para nada, me arrastava de um canto para o outro pela casa, achava minha vida uma droga, não me entendia, Não conseguia realizar nada, me achava uma preguiçosa, (e todos concordavam) porque não havia motivo concreto para a dor e a tristeza que eu sentia me impossibilitarem muitas vezes até de ter forças de tomar um simples banho.
Então sem nenhuma razão tudo mudava. Vinha uma euforia do nada que me fazia sair por aí gastando até o que eu não tinha, me arriscando, falando mil besteiras, agredindo as pessoas... Nem eu mesma entendia as minhas atitudes mas não estava nem aí para isso porque era infinitamente melhor do que ficar prostrada. Nessa fase eu tinha mil idéias ao mesmo tempo, fazia mil coisas ao mesmo tempo e adorava, fazia uma besteira atrás da outra com culpa zero.
Mas depois a culpa vinha. E como doia...
Eu achava que não tinha mais jeito, que eu era insuportável e ponto final (como todos ao meu redor). Eu també, achava que meu descontrole era sempre culpa de alguém. Até mesmo o tempo entrava na lista de culpados, quando não podia culpar ninguém.
Minha vida foi um caos por muito tempo. Quando o Marcos sugeriu que eu talvez fosse uma Bipolar (como ele já havia descoberto ser) houve a terceira guerra mundial aqui em casa. Me debati em preconceito por mais uma ano inteiro enquanto meus surtos aumentavam até me dispor a, completamente mal humorada, procurar um psiquiatra. (Já falei por aqui sobre a minha primeira consulta, nem sei como ele não me internou)
Quando diagnosticada com bipolar, passei por algumas fases:
Primeira fase:
- Pensei "pronto! Além de tudo que achava que era, também sou maluca e vou me entupir de remédio"
Completamente ignorante no assunto eu fui tomando a minha medicação (com uma pequena dose de rebeldia) e me sentindo muito melhor. Gostei, me recriminei por ter passado tanto tempo sem pedir ajuda. Meu humor ficou bem melhor. Estabilizei.
Segunda fase:
- Fiquei tão bem que pensei "não preciso mais de remédio, estou ótima!"
Legal, se eu tivesse me dado ao trabalho de ler sobre o assunto ou procurar meu psiquiatra para conversar teria sabido que eu estava ótima porque meu tratamento estava funcinando. Mas não, minha rebeldia aumentou. Por alguns dias fiquei não tão bem, e depois fui ladeira abaixo. No quarto dia estava aos prantos atrás do meu psiquiatra. Ele já tinha acabado as consultas e estava no estacionamento. Corri (literalmente) até ele que me atendeu ali mesmo no pátio do estacionamento e de frente a porta de seu carro aberta, numa emergência inusitada e marcou uma consulta para o dia seguinte.
Ele disse que meu ataque de rebeldia (como eu chamo) é muito mais normal do que eu imagino e que joquei todo o progresso do tratamento pelo ralo. Prometi ser uma boa menina e recomeçamos o tratamento.
Terceira fase:
- Comecei a me informar sobre o transtorno. Li com atenção sobre como eu posso fazer para tudo funcionar bem e me dispus a me tratar sériamente. Com a medicação e tudo o que precisar para me manter bem.
Fase atual:
- Fiz as pazes com a minha Bipolaridade.
Sou assim e tenho muita sorte de ter um transtorno que se não tem ainda cura conhecida, tem um tratamento eficaz.
Hoje ainda tenho oscilações de humor em proporção infinitamente menor as que tinha antes. Ainda tenho momentos em que coloco uma lente de aumento nos problemas. Depois percebo e dependendo da gravidade até rio de mim.
Minha vida deu um salto de qualidade gigante. Nesse site percebo que não estamos sozinhos (eu e Marcos) e me sinto muito feliz de ter vocês conosco para compartilhar nossos momentos ruins e os bons também. Para dizer que existe vida de qualidade, mesmo sendo um Bipolar.
Isso é possível com o tratamento, comprometimento e muita responsabilidade.