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Eu sou adicto em recuperação. Quase destruà totalmente minha vida com o uso de drogas. Fiz inúmeras tentativas infrutÃferas para parar de usar e não consegui em nenhuma delas. Só consegui parar mesmo, quando pedi ajuda e hoje tenho mais de 12 anos sem usar nada, nenhum tipo de droga, nem mesmo o álcool que, apesar de ser uma droga “sociável” e aceita pela sociedade é a que mais mata no Brasil. Até aqui minha vida estava uma grande porcaria, bem depois que parei de usar e entrei em recuperação as coisas começaram (muito lentamente) a dar sinais de que eu tinha salvação e poderia ser uma pessoa feliz, não fosse o fato de que, apesar de ter parado com as drogas, meu comportamento continuava atrapalhando minha vida. Mais uma vez pedi ajuda e pronto, outra bomba, descobri que sou portador de Transtorno Bipolar do Humor. Não bastava o fato de que minha vida era uma porcaria com uma doença só (adicção), eu precisava ter outra para me preocupar. Não demorou muito para que descobrisse que minha esposa, que também é adicta em recuperação a mais de 12 anos, também fosse diagnosticada como bipolar. Pois é, nada na minha vida é fácil ou simples. Temos alguns filhos, destes o mais novo demonstra alguns sinais de bipolaridade ou hiperatividade, porém sem muita gravidade. Está apenas na fase da observação, mas o mais velho sofreu um hematoma entre o crânio e o cérebro no momento do nascimento, que deixou algumas seqüelas, tais como: agressividade, dificuldade de aprendizado entre outros sintomas e também faz tratamento. Por fim a filha do meio, já foi diagnosticada como bipolar por dois Psiquiatras diferentes e como qualquer bipolar em inÃcio de tratamento, se recusa a se submeter ao tratamento, cometendo as atitudes mais estapafúrdias e perigosas.
Resumindo, minha casa é realmente como descrita na reportagem, é uma espécie de mini-hospÃcio. Mas nos amamos e nos apoiamos muito, o que facilita bastante a convivência com todas estas doenças.
Apesar de termos todas estas dificuldades, ainda conseguimos tempo para manter funcionando este site e tentar ajudar outras pessoas que passam pelas vicissitudes da bipolaridade.
Um casal que já vários tipos de drogas pesadas (e leves), com um histórico de doença emocional crônica, com filhos complicados deveria ser no mÃnimo uma dupla como Bonnie & Clyde: desonestos, preguiçosos, cheios de maus hábitos, péssimos pais, que gostam de vida fácil e desempregados perenes. Ao contrário, somos muito competentes profissionalmente, conscientes de nossos transtornos emocionais, dedicados ao tratamento, ao trabalho e a nossa vida, tentando não deixar faltar nada dentro de casa para que nossos filhos (e nós também) possam ter uma vida digna.
O que vemos na vida como ela é, preto no branco, é que pessoas que nunca passaram por 1/5 dos nossos problemas, não conseguem ter bom caráter. São pessoas que vemos todos os dias, que não sofrem de nenhum tipo de transtorno, nunca usaram drogas (ilÃcitas), são extremamente religiosas, (somos ateus), se orgulham de serem assim, mas tomam atitudes que, pelo menos nas teorias populares (ou dos catedráticos e religiosos), são contrárias ao caráter que afirmam ter. Pessoas que são empresários, diretores, avós, tias, mães, que fazem de tudo, de tudo mesmo para conseguir o que querem não se importando por cima de quem terão que passar. Depois justificam e racionalizam suas atitudes hipócritas, agindo ao final delas, de maneira extremamente prepotente e dizendo que “só tomaram estas atitudes por que não são drogados ou doentes mentais”. Demonstram o preconceito exacerbado e incoerente. Conheço um que é formado na área das ciências humanas, é religioso, que não gosta de ateus e que exerce um cargo de chefia em uma determinada empresa. Nunca usou drogas, mas não consegue agir com honestidade, não consegue olhar as pessoas nos olhos e ser verdadeiro. Mente com uma facilidade que assusta. Usa as pessoas como se fossem peças em um tabuleiro de xadrez, apenas para que os outros não enxerguem seus erros e fraquezas. Não valoriza o trabalho desempenhado por outros (apenas o seu) e os descarta com muita tranqüilidade dizendo sempre que “ninguém é insubstituÃvel”. Depois vai para o templo que freqüenta faz suas orações e se dirige ao lar com a cara mais lavada do mundo. Ele realmente se acha uma pessoa bondosa.
E aà eu pergunto para você: quem é o doente? É nessa sociedade de valores invertidos e distorcidos que vivemos, onde o dinheiro fala mais alto que qualquer valor humano. Você vale pelo que tem ou por como pode ser usado e não pelo que é. Se eu disser que sinto pena destas pessoas, estaria mentindo, mas como sou “doentinho” me obrigo a falar a verdade. Sinto raiva pela hipocrisia disfarçada, mas sem máscaras deles.
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Venho cuidando de mim, me observando, aparando arestas, corrigindo onde estou errando...
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